"A CRATERA"
(integrado na exposição "O que está de errado na (tua) casa?")
Dá-se a conhecer o projecto de remodelação dos dois pisos do atelierdacosta pelo registo fotográfico do tecto da sua cave - agora espaço de trabalho, antes de atendimento. Sobre a sua projecção, está desenhado o mobiliário actual e real, denunciando a acomodação do uso, mais ou menos espontâneo, ao único elemento organizador do espaço sem janelas: o tecto e o seu desenho da luz – seja artificial, seja natural, pela abertura de uma cratera na laje.
Antes do projecto, acumulavam-se, numa espécie de cartografia sintomática, desajuste e erro que instituíram (e instruíram) o projecto – já não havia margem para toda a inquietude das práticas do quotidiano sobre o espaço, sem recorrer a esse último expediente que é o projecto e a obra, reprogramadores da vida tal como ela já quer ser. O erro que é sintoma é rapidamente conversível, no projecto, em erro que é recurso, sobretudo se nos reportarmos à origem latina da palavra, e assim entendê-la como um dilema, um percurso contínuo e não linear de dúvida e experimentação, potencialmente errático; e, retomando a pergunta de partida, esta é uma maneira de a colocar que preferimos: talvez por sorrateiramente nos ilibar.
Sem nos apercebermos imediatamente, e sem a clareza exibida no conto dos Sapatos do Senhor Valéry1, discutíamos permanentemente dois conceitos aplicados ao quadro do habitar pre-existente e o imaginado: o de lógica e o de convenção. No habitar da casa, o seu desequilíbrio pode significar perturbação – que experimentámos e que pretendíamos que o projecto renegociasse. Com a cratera ainda em execução, ouvíamos constantemente: “este buraco vai ser para umas novas escadas, não vai?”; mas talvez estas tenham sido formulações de desejo travestidas de convenção, nostálgicas da anterior relação directa e à cota da rua com o núcleo de trabalho do atelier. Surgiam também os alertas para a lógica – sempre bastante generalistas e criadores de espécies de aforismos indiferentes às diversas nuances - com especial enfoque no espaço de trabalho que “deveria ser sempre aquele com mais luz natural”. Também nas decisões construtivas ouvíamos: “depois com reboco no topo das vigas cortadas e fica rematadinho, não é?”. Pois bem, também aí encontramos campo fértil para a subversão negociada e deixamo-las com o corte à vista, denunciando o acto produzido sobre a estrutura.
Evitando declarar tabula rasa da existência e o consequente desperdício, procurávamos não fazer um mero makeup dos espaços só para conseguir mais intimidade no trabalho, só para obter mais luz no atendimento ou maior desafogo na entrada, mas ultrapassar essas barreiras politicamente impostas pela convenção ou por uma lógica convencionada. Essencialmente, luz e matéria foram alvo de uma transformação operada pela cratera que desmontou a homogeneidade dos dois pisos – um homogeneamente escuro e outro homogeneamente iluminado – para gerar atributos mais complexos e heterogéneos, desdobradores das possibilidades de vida no espaço.
(1)- Tavares, Gonçalo M., A estranha Casa do Senhor Walser, in Pensar a Casa, Conferências da Casa, Associação Casa da Arquitectura, 2011
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