Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
(...)

Herberto Helder
“Súmula”, In «Ou o Poema Contínuo», Assírio & Alvim, 2001

# 118.01

Casa de Férias
2016 - 2019
Esposende
fotografias de Tiago Casanova

When we first visited the corner space and heard the program description from the client, a clear motto came: the program could easily be settled by designing only a kind of a solo device, a cabinet, an apparatus of wood or/and metal, placed inside that space. The functions asked in the program could be arranged in two big groups in terms of scale: one of those consuming preferably open-spaces or subspaces inside it, but all above 10 squaremeteres (barberspace, boutique area), and another of those like the fitting rooms, exhibitors, small warehouse, counter, most of them transformable into niches spaces. That lead us to keep the existing masonry as found (the bathroom was kept) and adjust the device that would host the less scale objects, even if obbeying to a very recongizable structural grid, helping the wood and metal construction to take place. This piece, to be placed in the core of the store plot, backing up to the rear walls, released the facade perimetrer and moulded the empty space in-between it and this perimeter. Therefore, the apparatus should be designed as if it landed in a continuous floor and ceiling. The piece can be divided into 3 parts, from the heaviest to the lightest: the structure in wood, creating the support to the piece and regular limits, the semi-open mesh to the warehouse and mechanical room in metal with outter limits and the HVAC piping in inox, expelling out of its borders even more. The piece is the machine that makes the productiveness of the empty space it defines around and where consumption takes place. Establishing the relation with the public space around, a street and a square, the heavy outter shell of stone and windows remains with no classic showcase, but only transparent as much as possible, and deliberately punctuated with new reddish awnings and big industrial white lighting lamps.. The second layer, defined by the device designed, offset from the heaviest, is perceived from the outside as an interior inside an interior, a collection of cosy niches for showcasing, and the lighting is rather warm and gold/ yellowish. Between the two shells people live (in) the “thershold” space, between white and goldish; stone and wood; in and out; public and private.

# 109.10

Barber Shop e Boutique
2017 - 2018
Viana do Castelo
fotografias de Tiago Casanova

O pedido, pouco comum, tinha a ver com a expectativa não verificada de um casal vir a ter filhos. Daí resultou a compra de um “T2” que nunca funcionou como tal, a não ser na excepcionalidade das visitas, nomeadamente dos sobrinhos. Ao ponto de terem ocupado, a certa altura, o segundo quarto com armários próprios de guarda-roupa. Todos estes indícios, somados ao desenho existente - bastante típico de um financiado por construtor dos anos 90 - sem cuidados na qualidade da compartimentação e do seu resultado espacial, levou-nos à revisão quase total dos espaços, na relação com a aplicação real dos hábitos, discutida de raiz. A habitação não poderia deixar de ser compartimentada mas poderia adquirir diferentes categorias de divisão, em que cada umbral correspondesse a um grau de aprofundamento da intimidade e, por isso, de relação entre os espaços que mediava. Primeiro, ficou o registo de um corte excessivo da relação entre o cônjuge que usava a sala e o outro que usava o escritório quando se encontravam em casa, já de noite, pela presença da cozinha, colocada entre estes dois espaços. Depois, registou-se que a cozinha, normalmente é usada em simultâneo pelos dois e não sofreria, por exemplo, deste problema. Também a falta de eixos visuais entre os espaços, cuja relação era intermediada apenas por um hall, se tornava, neste contexto, problemática. A proposta passa por refazer todo o miolo mais escuro de articulação dos espaços com frente de fachada, com as casas de banho e o desenho de espaços- umbral - onde o grande desejo de ter muita arrumação é respondido com armários fixos. Assim, o quarto passa a ser praticamente metade do fogo, com entrada através de uma grande porta, e, no interior, encontram-se vários espaços que não perdem, nem a relação visual - antes inexistente - com o espaço da sala, nem a possibilidade de divisão através de um elemento mais informal - a cortina. Já a sala passa a relacionar-se directamente com um escritório que é umbral na relação desta com a cozinha - que ocupa agora o antigo espaço de escritório, no extremo sudoeste da planta. Ao demolir paredes, a tentação de não voltar a compartimentar era grande - resistimos, para que a vida não seja passada num “contentor” amorfo e indefinido, e transferida, sem sequer ter tentado resistir, para os espaços dos 3 computadores que duas pessoas usam. Hoje, relatam- nos transformações na forma de usar aqueles espaços. Pensamos que, se algum sucesso houver neste exercício se deve a termos resistido a essa tentação. A vida, mesmo que transferida em parte para os espaços não reconhecidos pelo desenho da arquitectura (no apartamento existem 3 computadores) ,ainda exige que os espaços sejam desenhados em resposta às manifestações do Homem, das mais rotineiras às possivelmente artísticas - acordou- -se, por exemplo, a divisão do escritório da sala com uma cortina vermelha de teatro, para ensaios de contrabaixo.

# 121.01

Apartamento
2015 - 2016
Braga
fotografias de Tiago Casanova

The half-underground space was plenty of compartimentation and lightless environment inside its very thick stone walls. The owner intended to transform it into a second home inside his old house, being almost self-sufficient and liveable. The construction surveys revealed there was running water below the pavement, leading us to make the “U” shaped plot a kind of big concrete floating boat first, well impermeabilized to receive the architectonic devices above, enough warm and refined to “build” the home, including materials as wood of different types. Apart from all space and light strategies (as opening windows and patios) to create a 4-subdivided living/resting room, the bar, a bathroom, a kitchen and a dining room, there was a nitid problem of unity. The hard and late resolution of one of the main topics -artificial lighting- turned to be the motto to address the problem, by designing a big linear lamp made of wood sheet in a cross-shape allowing to unite all the spaces, more than the original plan let. Wherever one is, it is possible to see the suspended linear lamp.

# 078.06

Semi-cave
2015 - 2016
Esposende
fotografias de Tiago Casanova

The portuguese National roads, most of them forming an old settlement, define a kind of places-in-line along the territory in the northern region. Most of the people living 15 km away from the service station intervened, know it and frequently use it, not only as a gas pump, but also as a bar, minimarket, local ATM, jetwash, propane gas provider, etc. Most of these functions were already provided in the existing building in a very precarious way. Located in the 206 National road, the existing building presented an almost regular structure, even though it was full of anacronic aspects to correct and mould to the new program. The structure was undressed of its excesses in the front facade, and totally treated (the concrete was old and fragile), cladded and displayed concerning its metric. The side and back facades were fully cladded with ondulated metal sheet. A concrete basement makes the building meeting the unleveled ground, regularizing the metalworks to do above. Apart from this very prosaic, understandable and rational intervention to refurbish the building, it was proposed in the front (south) facade a very long and low semi-open metallic piece, road inclined, that gives the building elevation a new proportion, holds the lighting advertisement and gives some shadow to the inner spaces. Celebrate, understand and dignify this type of urban habitat is what architecture might be able to do when summoned to this very light kind of intervention. Furthermore, it has been shown more and more that this urban condition is much rooted to an old raison d´être for the organization of these linked settlements. We can´t still be so sure as Reyner Banham in Los Angeles, when depreciating the weak city centre at the expense of the periphery places as the urban engine and interesting object of study, but we can tell by driving around - the unique way to move in Famalicão - that the problematics here are much multiple and fizzier.

# 157.02

Estação de Serviço
2014 - 2015
Famalicão
fotografias de Tiago Casanova

Um banco para ser transformado numa clínica dentária; o programa dado sugeria a necessidade de compartimentalizar o espaço, lidando apenas com a existência da estrutura e das paredes perimetrais. Todo o Homem é diferente mas biologicamente semelhante. A partir da visão do cliente, cada Homem deverá ter um tratamento único e personalizado nesta clínica, mas, para isso, cada gabinete médico deverá ter condições semelhantes. A regra é baliza para o enquadramento da irrepetibilidade. A mesma clínica e os mesmos clínicos devem ser capazes de criar várias e únicas consultas todos os dias. Por isso, o principal requisito prendeu-se com a existência de luz natural em cada um dos 5 gabinetes médicos, embora não fosse possível que todos estivessem contíguos à fachada exterior, tendo em conta a sua largura. Para além disto, os médicos falaram-nos sobre o fenómeno da claustrofobia aquando do tratamento. Relembrando Anthony Vidler nos seus textos sobre a importância dos diagnósticos de claustrofobia e "agoraphobia" no advento do movimento moderno, uma pergunta se levanta: estarão as suas premissas falidas? De acordo com o cliente, juntamente com a necessidade clara de subdivisão do espaço, a de continuidade visual e de profusão de luz eram prioritárias. Para desenhar a massa construída, foram usadas três tipos de superfícies verticais: paredes opacas ( alcatifa, gesso cartonado e alumínio), paredes de vidro e cortinas. A maior parte da massa construída é formada por um conjunto desenhado com paredes de vidro, dividindo e ligando, moldando o tempo, multiplicando o espaço e as suas realidades. O uso do vidro - "este isolante, este milagre do fluído cristalizado", "este incolor, inodoro, não degradável" ( Baudrillard, 1969), “moral e higiénico” (Teyssot, 2010) material, - tornou-se numa condicionante de projecto por razões muito prosaicas - e, para se manter prosaico, as suas extremidades são redondas, facilitando o trânsito suave de carrinhos médicos, cadeiras de rodas, entre outros em movimento numa clínica.

# 053.01

Clínica Dentária
2015 - 2016
Vila Nova de Gaia
fotografias de Tiago Casanova

Do edifício do século XVIII – cunhal entre a Rua da Fábrica e a Rua Conde de Vizela - apenas os dois primeiros pisos se destinavam ao “Ostras & Coisas”. O terceiro e quarto pisos (este último recuado) estavam habitados, mas em mau estado de conservação da sua construção. O fragmento sobre o qual interviríamos estava ali, como a coluna de Filarete vista por Rossi, na sua redução a espaço e a luz de uma ruína , “devorada pela vida” em redor . No rés do chão ficou o abandono de uma churrasqueira construída nos anos 80, enquanto no piso 1 terá ficado a ausência de um alfaiate. A este fragmento, que é também em si fragmentado, impunha-se uma intervenção “osteológica” que unisse os fragmentos num projecto de conjunto. A “cidade formal” onde se encontra, esta que se implanta consolidadamente no centro, está num impasse contemporâneo, entre o progresso e a perda de identidade, mas continua a produzir-se pela permanente transferência de vida entre o espaço público e os vários redutos de intimidade pública e privada que encontramos penetrando as fachadas. Fachadas que delimitam propriedade mas não podem demarcar o binómio público /privado, seja essa penetração mais permeável ou mais obstrutiva, segregadora e com triagens por critérios sociais, culturais, económicos e outros. Como é que poderíamos redesenhar vários desses redutos, pensando a continuidade da vida pelo interior, essa cidade democrática que se prolonga, num conjunto de dois pisos que nunca haviam funcionado como um todo ? Quando visitámos pela primeira vez o espaço interior do edifício vimos dois espaços nunca antes ligados directamente e em estados de conservação da arquitectura original totalmente distintos. A proposta de programa que nos foi apresentada era clara e assentou nesta dualidade entre os pisos: deveriam funcionar, em simultâneo, uma espécie de “oyster bar” e um espaço de restaurante, mais formal, servidos pela mesma cozinha. Deveriam ser partes distintas da mesma unidade. Para não perverter o sistema intemporal de uso autónomo por piso – que poderia ser reposto no futuro – evitou-se a construção de uma escada directa entre pisos. Preferiu-se o uso da escada existente e a transformação do seu espaço, ainda que partilhada com todo o edifício, como se de uma “segunda rua” se tratasse (onde se podem encontrar clientes, residentes e trabalhadores) ; um espaço (de) público, acedido depois de se passar por uma espécie de “public house”no rés do chão. A primeira acção de projecto foi , por isso, passiva: construir o discurso para não construir uma escada. Um vão maior passaria a ligar o espaço do piso 0 à escada e ao espaço da escada reformulado. Perante dois estádios de conservação muito distintos entre os dois pisos, o projecto havia de reflectir sobre o conceito de preservação, não só pelo ângulo mais conservador que lhe está associado, mas prospectivamente no tempo. A preservação é, aqui, tida como um processo contínuo; os dilemas acumulados de cada época são seleccionados e redesenhados como um todo, destruindo e adicionando, essencialmente pelas necessidades recentes de infra-estruturas num restaurante e a sua compatibilização com as estruturas existentes. O piso 1 , que também sofreu algumas intervenções dos inícios do século XX, parecia já relativamente optimizado para o restaurante pretendido -mais formal e recatado- tornando-se apenas todos os espaços percorríveis entre si e restaurando todos os elementos construtivos. Manteve-se a estrutura sequencial de espaços simples e extremamente adaptável a diferentes programas, compartimentados em paredes de tabique e tectos em estuque .Foram alvo de uma intervenção de restauro e consolidação, tendo em conta o seu estado de deterioração, combinada com pequenas adaptações (novos vãos, armários, etc) que se procuraram acomodar no espírito do existente. No piso 1, todo este trabalho de reintrodução de peças cingiu-se à carpintaria. No piso 0, como já referimos, a situação encontrada era bem diferente, estando desprovido de qualquer elemento original, à excepção das paredes limítrofes em alvenaria de granito e o tecto com a estrutura do piso em madeira. Tudo o resto eram pobres intervenções de interior e caixilharias dos anos 80. Esta ausência permitia imaginar um espaço apenas, único, comum e público, espécie de “public house” aberta à rua sem reservas ou filtros criados por estruturas de compartimentação. Seria desenhar um espaço para o público, ou melhor, encontrar o desenho possível para uma divisória que dá forma aos dois principais espaços a prever: o do público e o de serviço, correspondente à cozinha. Dada a exigência de arrumação de stock e de diversas peças a acomodar, tornou-se impreterível que a divisória fosse também armário, que reuniria e organizaria todos os equipamentos e dispositivos necessários, desde o balcão ao banco fixo, dos viveiros à vitrina de bebidas. O espaço térreo é, não só onde o produto é mostrado, mas é também guardado, transformado, cozinhado, etc. O piso térreo é, por isso, o laboratório do todo. Esta parede-armário foi disposta tendo em conta o ângulo já existente entre as duas paredes das fachadas de alvenaria de granito, obtendo, assim, uma área razoável de cozinha e área de serviço no quadrante Sul/Nascente do edifício, sem perder a leitura de um espaçoúnico,comum,democráticonasuarelaçãocomarua. Aausênciadecarpintariasoriginaisoucom especial relevância, a agressividade associada ao uso de r/C e a necessidade de reforçar a estrutura de piso levou-nos a cingir o trabalho no piso 0 à serralharia.

# 002.01

Restaurante e Bar
2015 - 2016
Porto
fotografias de Tiago Casanova

A bar was installed in one of the mills on top of "S.Felix" mount. It was asked to expand its capacity with a new and light structure. It contrasts completely with the hermetic mill by its total openness to the landscape. The new structure had to be modular and orthogonal. The only orthogonal element in the site was a very prominent cross West oriented. The structure of this winter garden bar is defined by that.

# 097.01

Bar do Moinho
2013 - 2014
Póvoa de Varzim
fotografias de atelierdacosta